quarta-feira, 28 de março de 2007

GRAVAÇÃO DE CORAL EM LOCAÇÃO EXTERNA - CORAL BAUKURS


Por Marcelo Cotta (Ago/01)

Com a inevitável e irreversível tendência dos estúdios migrarem para gravação de áudio digital direto no computador (PRO TOOLS, MOTU e outros), os velhos e bons adats têm sido jogados num rack distante na técnica, onde só um assistente experiente e em boa forma conseguiria chegar, são também instalados nos estúdio K, L, M... Para pré-produção em parceria com aquela Mackie 24x8, ou seja, colocados de lado, muitas vezes não só de lado, embrulhados e jogados num armário mais distante ainda que aquele rack quase inacessível da técnica. Mas outro dia surgiu a oportunidade ideal para usar esse equipamento na sua potência máxima, gravando em 24bit em 4 pistas.
A situação foi a seguinte: uma gravação “ao vivo” do coral BAUKURS a capela, utilizando uma sala localizada na Escola Corcovado em botafogo, prédio que na época do Rio de Janeiro capital do País abrigava a embaixada dos Estados Unidos. Como era de se esperar a construção é realmente maravilhosa, pé direito alto, paredes robustas (sonho de qualquer projetista), 3 andares, que a noite ficam totalmente vazios. Na primeira visita com o regente do coral, Júlio Moretzhon, decidimos gravar no hall do segundo andar. Esse hall é cercado por salas, o que ajudaria no isolamento relativamente precário. O único problema era a existência das escadas larguíssimas bem no meio do hall, o que proporcionava um tempo de reverb tão longo que poderia até ser usado como efeito especial, mas para uma gravação de coro era um pouco demais, algo em torno de 5s. E, além disso, na parede em frente a escada uma enorme janela de 3 andares!!! eu disse três andares!!! Que provavelmente não era fechada desde a época da Guanabara!!! Pronto, se fazia necessário o jeitinho brasileiro. Combinamos com o regente que seus coralistas trariam o máximo de cobertores possível.
É chegado o grande dia. Pronto, desencalhamos nosso velho e bom adat LX-20, que quando compramos pareceu o melhor negócio do mundo, pegamos também nossa Yamaha O2-R, um pré-amp aphex estéreo, um equalizador aphex estéreo, 2 AKG C-414 TL-II (o douradinho), 2 AKG C-391 e nosso brinquedo mais novo, um Avalon VT-737 (que levaríamos para seu primeiro passeio depois da vacina). Levamos também os pedestais e os indispensáveis sacos de areia, sim sacos de areia, tente colocar US$1500,00 num pedestal de R$45,00 a uma altura superior a 3 metros e você notará a necessidade dos nossos práticos sacos com areia de Copacabana. É claro que não podemos esquecer da sacola cheia de cabos extras, réguas, estabilizadores, extensões e outras chatices necessárias. Vamos pular a parte chata do desce escada, sobe escada, enche o carro, esvazia o carro e vamos direto pro nosso Hall tão querido.
Como a hall era basicamente retangular resolvi dispor o coro de frente para a tal escada maldita e sua janela milenar, para tentar obter o maior efeito estéreo que sala pudesse me dar. Nesse momento começavam a chegar alguns cobertores das mais variadas cores e tamanhos. Imediatamente uma equipe paralela se formou em volta dos cobertas e munidos de silver tape, fita crepe, alfinetes de fralda, tesouras, cordas etc... começaram a dar forma ao que me pareceu a maior e mais feia cortina que já vi na vida. Com essa enorme colcha de retalhos conseguimos com muito trabalho do nosso assistente cobrir toda a extensão da escada, e ainda sobraram cobertores para as janelas “imexíveis”. Após nosso barraquinho chique armado posicionei um C-414 bem em frente ao coro o mais longe que pude, com a figura cardióide, para obter uma imagem mono do coro, e com um pouco menos de ambientação (o cobertor logo atrás do microfone ajudou a diminuir a reverberação da sala). Outros dois C-391 foram posicionados um de cada lado do coro um pouco a frente dos 414. Liguei o do meio no Avalon (que delícia, apesar de soar um pouco mais grave do que pensei, nada que 32Khz não resolvessem) e os dois C-391 das pontas liguei nos Aphexs (estes já não soaram tão graves, como já seria esperado). Todos os pedestais devidamente reforçados pelo peso dos sacos de areia. Rodei o mínimo possível meus queridos botões e o som já estava excelente, graças é claro ao trabalho maravilhoso que o Júlio Moretzohn faz com todos os coros que rege. Tentei equalizar o mínimo possível e, como sempre, procurei filtar mais do que acrescentar. Com o eq Aphex eu tinha apenas duas bandas para cada microfone C-391, então acresci uns 5db em 20Khz e procurei uma frequência entre 300 e 600Hz e atenuei. Essa frequência eu definí colocando um Q pequeno, um boost de uns 6dB e rodando o botão da frequência até achar algo que pareciam fantasmas conversando no fundo da sala (cheguei a levar um susto). Essa era a faixa de frequência onde a sala embolava mais o sinal do coro, aumentei um pouco o Q e atenuei em uns 4 ou 5 dBs ajudando a clarear o som. No pré filtrei 80Hz, afinal nossa escola não era tão silenciosa quanto gostaríamos. Estávamos trabalhando com um coro de mais de 30 vozes. Já tive o prazer de gravar um coro de mais de 120 (uma PRESSÃO!!!).
Normalmente o naipe dos baixos sempre é o menor, devido, é claro, a dificuldade de encontrar cantores baixo, na maioria das vezes barítonos assumem essa função o que tira um pouco da pressão e do volume nas regiões mais baixas. Em alguns momentos sentia falta do peso dado pelas vozes mais graves que normalmente ficam atrás. Coloquei então mais um C-414 no meio dos homens no fundo do coral dessa vez em omni-direcional. Pronto já tinha todo o grave que queira e um pouco mais da belíssima ambientação que nosso hall proporcionava. Como só tinha levado três canais de pré externos tive que ligar esse quarto microfone direto na mesa e como estava gravando em 4 canais separados, poderia lidar com o volume desse canal depois. Com tudo ligado na O2-R tudo chegava ao adat em 24bits, o que gasta o dobro de canais. Lindo!!! Regulei os compressores da O2-R para atuarem quase que somente nas notas mais agudas das sopranos, que normalmente são as que têm o maior volume, tome cuidado também porque essas notas costumam ser empostadas e têm tanto volume que podem distorcer o mic antes mesmo de chegar no pré. E nesse caso uma atenuação no mic pode ajudar, mas tome cuidado, numa parte muito mais baixa o sinal pode ser muito fraco, e isso num âmbito digital é o que menos queremos!! Quanto menos volume, menos qualidade.
O prédio fica localizado na rua São Clemente em Botafogo!!!! mas graças a Deus bem no fundo do terreno, no pé do morro. Não tivemos então muitos problemas com o barulho do trânsito (já eram 9 horas da noite, de sexta-feira), a não ser alguns poucos ônibus enlouquecidos que passavam vez ou outra no meio do melhor take. Nossa enorme colcha de retalhos cumpriu o papel de amenizar a propagação do som pelas escadas, mas como era previsto não nos livrou de participações especiais de grilos e gambás. Lá foi o nosso assistente servir de espantalho de grilo!!
O coral BAUKURS estava soando lindamente, depois de tudo armado, funcionando, pude relaxar e praticamente só curtir a música, o que seria desse trabalho se não fossem esses momentos de magia, é realmente uma experiência muito gratificante participar da gravação de um ótimo coro, e o que é melhor só eu estava ouvindo tudo com meus inseparáveis fones K-240 (puro prazer). Procure levar também além de um excelente fone um outro que tenha um bom volume (baixa impedância), com um coro a todo vapor você pode não ouvir nada num fone de alta impedância como o K-240. Nessa situação sempre leve em conta que os fones de ouvido não dão uma idéia perfeita da ambientação que a sala está proporcionando, procure não exagerar demais na distância dos microfones, você pode acabar perdendo presença. Gravamos alguns takes com os naipes femininos na frente e os masculinos atrás, mas optamos por mesclar os naipes colocando sempre os baixos no meio do coro, para não desequilibrar a imagem estéreo. Perdemos também um tempo ouvindo o coro e mudando alguns integrantes de lugar, a idéia era ter um equilíbrio perfeito de contraltos, sopranos e tenores, não queríamos que nenhum naipe soasse mais forte de um lado.
Com uma regência impecável e pulso firme o Júlio Moretzohn conduziu a gravação por mais de 4 horas praticamente sem parar. Já gravei muito coral e ví poucos com tamanha capacidade de concentração. Ao final da noite, início da madrugada, terminamos a gravação do dia, e logo depois do último take fomos surpreendidos por um enorme queima de fogos dos nossos vizinhos. Partimos então para devorar o imenso piquenique que estava armado na cantina da escola. Coro grande tem essas vantagens.

CORAL E GRUPO VOCAL - GRAVAÇÃO EM ESTÚDIO


Por Marcelo Cotta (Dez/02 e revisto em Ago/10)

Neste primeiro artigo quero falar sobre a forma mais confortável, mas não necessariamente a melhor de gravar um coral: em estúdio. As dicas aqui contidas são pontos de partida para a experimentação. São idéias que venho testando há anos e têm se mostrado eficientes.
O primeiro problema que normalmente encontramos é a própria sala de gravação. Ganhamos em isolamento escolhendo não gravar num teatro, por exemplo, mas não são muitos os estúdios modernos que possuem uma sala suficientemente grande para acomodar 30-40 pessoas e o som que elas produzem. Outro fator é a acústica, a sala não deve ser muito absorvente e de preferência ter um pé direito bem alto. No caso de estarmos gravando um coral não a capela teremos que colocar fones para todos e mais um (o melhor de todos) para o regente. É interessante ter a possibilidade de
monitorações diferentes. Por exemplo, podemos usar uma monitoração para as mulheres e outra para os homens ou ainda uma para cada naipe além da diferenciada para o regente.Alguns exemplos de corais que já gravei dessa forma são: o Coral Despertar de quase 30 vozes, Maranata (de São Paulo) com perto de 20 integrantes e o Colégio Cruzeiro com turmas em torno de 30 crianças de 1ª a 4ª série.

EQUALIZANDO

Procuro manter sempre em mente o conceito de que menos é mais (essa é velha!!) principalmente em termos de equalização, se o som não estiver bom não vai ser o eq que irá resolver, talvez o microfone não tenha sido bem escolhido ou sua posição não esteja legal, tente de tudo antes de sair cortando e acrescentando frequências demais. Quando equalizo penso muito mais em filtragem. Filtrando o que não está bom você melhora todo o resto. Se o som estiver abafado não saia dando boost nos agudos, tente primeiro ver se os graves e médios graves não estão embolando. Com um Q pequeno dê um boost grande (6 dB) e com o botão de frequência ache que área está mais embolada, e então atenue o quanto for necessário e regule o Q, mas não exagere. Eu gosto de começar usando o filtro do próprio microfone, normalmente esses cortes são de 75, 80Hz ou 150, caso ele não tenha use o do pré, isso já libera um pouco o seu equalizador. Então procuro a faixa de graves e médio-graves que por ventura estejam incomodando e atenuo, parto sempre de 200-250Hz até 800Hz, mas 400-500Hz costumam funcionar sempre, essa é uma área muito forte da voz humana. Se ainda assim estiver um pouco embolado procuro algo entre 80Hz e 250Hz e atenuo um pouco também. Com um coro muito forte você pode sentir o som um pouco estressado nas dinâmicas mais altas da música, então quando sinto isso procuro algo entre 1Khz e 2Khz e atenuo, dessa vez menos ainda que os graves e médio-graves, essa é outra área muito importante da voz. Parto então para o agudo, agudo mesmo!! Se seu equalizador permitir acrescente uns 4dB em 32Khz, ou então uns 3dB, em 20Khz. Essa região acrescenta um certo “AR” no som do coro, “abre” a sonoridade, mas cuidado com o ruído, quanto mais simples o equalizador mais ruído terá nessa faixa. Outro problema é a sibilância, imaginem 40 pessoas dando um “S” ao mesmo tempo, pode ficar alto mesmo!! Mas se o problema não estiver gritante eu procuro lidar com ele mais tarde. Durante a mixagem temos a opção de cuidar disso com mais calma e parcimônia, se você tiver um som muito abafado do coro gravado vai ficar muito difícil de fazer com que ele soe bem na mixagem. E ainda pode ocorrer que na mix outros instrumentos mascarem esse excesso de “S”. Procure manter em mente que quanto menos equalizar melhor, pense sempre de forma subtrativa, causa menos danos, e só acrescente o que for realmente muito necessário.

COMPRIMINDO

Outra vez menos é mais. Não me entendam mal eu adoro compressores, gosto de ouvi-los atuando, principalmente um valvulado, mas não estamos lidando com um solista, nem com um instrumento, um grupo vocal costuma trabalhar muito sua dinâmica, não estrague esse trabalho. Principalmente no caso de corais as variações dinâmicas são enormes. Durante as gravações gosto e comprimir o mínimo possível, só o suficiente para conseguir um sinal bem equilibrado e sem distorção no gravador, só uma leve arredondada, de, por exemplo, 2:1 comprimindo não muito mais de 2-3dB. Não use o atack e o release muito rápidos.

GRUPOS MÉDIOS E GRANDES (19 a 40 integrantes)

Vou citar alguns exemplos reais de gravação desse tipo de grupo. No caso específico do Coral Despertar usei teclado guia nos fones, teclados estes que não serão utilizados na mixagem final, então o nível de vazamento é um ponto crítico. Acho que o uso do fone de ouvido requer muito costume, é realmente um mal necessário, principalmente para um coral grande, então, para minimizar esse problema acho interessante que todos os integrantes tirem um lado do fone do ouvido, permitindo assim que escutem o som ambiente com clareza, acho que só assim conseguem uma boa timbragem. Como não posso ter problemas com vazamento abaixo totalmente o volume de um lado de todos os fones. A monitoração dos fones é importante. No caso do Coral Despertar dividi meu estúdio em duas salas menores e coloquei em um lado as sopranos e tenores e do outro baixos e contraltos. Nos fones das sopranos e tenores coloquei mais volume de baixos e contraltos e vice-versa. Dividindo o coro e o estúdio ao meio consegui forçar uma imagem estéreo mais forte. Armei um C-414 TL-II para cada parte do coro e mais um par de AKG C-391 de ambiente armados mais alto e longe do coro na posição XY (farei ainda um artigo sobre microfonações estéreo). Como eu e o regente Otávio Selles decidimos por um som mais direto sem tanta ambientação, o posicionamento dos coralistas é fundamental, a única forma de conseguir uma boa timbragem é colocar o coro para cantar e com o regente ainda na técnica ir mudando o posição das pessoas. Quem canta mais alto fica mais longe. No caso das sopranos tome cuidado com as partes mais altas, tenha certeza que não está “espetando”, é importante que ninguém sobressaia.
Outra técnica bem usual que ajuda nessa timbragem é dobrar o coral, ou seja, gravar mais de um take da mesma música. É claro que não conseguimos a sensação de termos o dobro de pessoas cantando, mas algumas arestas são acertadas e o coro ganha mais corpo. Esta é uma técnica bastante comum no meio evangélico, por exemplo.
Quando estamos gravando com fone sempre teremos reclamações do tipo “Não estou ouvindo minha voz!!”, “As sopranos estão muito altas no meu fone!!”, uns pedem pra abaixar outros para aumentar, uma confusão danada. O importante nessa hora é não perder a calma, eu já perdi e não adiantou de nada. Com calma vá regulando as monitorações até atingir uma média que agrade a todos (como se isso fosse possível!!!!). Escute os fones enquanto eles estão cantando, se coloque na posição deles, tenha boa vontade, ninguém reclama a toa, e num coro sem experiência de gravação você não pode tomar as reclamações literalmente, procure entender o que estão tentando dizer. Deixe o coro relaxar, aquecer, se acostumar com os fones, não coloque o ar condicionado muito forte, só o suficiente pra não ficar abafado demais.
Outro tipo de microfonação que uso muito para coral é bem simples e conhecida. Um microfone na frente do coral e mais dois de cada lado. A distância entre os microfones e o coro vai depender do efeito desejado. Quando dobro várias vezes procuro variar um pouco essa distância de um take para outro. Essa microfonação eu usei num disco de coral infantil que gravei para o Colégio Cruzeiro. Neste disco as crianças são acompanhadas ora por violão ora por teclado, mas nas duas situações resolvemos não usar fones. Primeiro porque seria muito difícil acostumar uma criança de 1ª série a cantar com fone e em segundo lugar eu adoro meus fones e quero ficar com eles intactos!!! Tentamos reproduzir a situação que elas estão acostumadas na sala de aula. São 20 turmas de aproximadamente 30 alunos cada, seria impossível acostumá-las com uma situação pouco confortável de gravação. Como o violão estava sendo gravado ao mesmo tempo, tentei fazer com que seu som ficasse bem definido, usei um C-414 com a figura hiper-cardióde, coloquei o violonista de frente para o coral para que o mic ficasse de costas para crianças. E, além disso, como o violão era eletro-acústico tirei também um sinal de linha separado, talvez possa usar para colocar reverb no violão sem colocar no coro, posso também tirar um som mais grave desse canal.

GRUPOS MÉDIOS (9 a 18 integrantes)

Nesse tipo de formação normalmente posiciono os microfones mais perto dos cantores, porém as microfonações acima também funcionam bem, experimente dobrar uma ou duas vezes microfonando de perto e mais uma ou duas de longe.
Algumas opções interessantes para esses grupos:
1. Dois microfones idênticos armados um de costas para o outro em figura cardióide, com os homens de um lado e as mulheres do outro. Se pretender dar um tratamento diferente para os homens ou mulheres coloque um rebatedor com vidro entre os microfones e mais 2 de cada lado.
2. Um único microfone em figura de oito, com homens de um lado e mulheres do outro. Nessa formação o grupo tem que estar timbrando lindamente, pois temos poucas possibilidade de cuidar do equilíbrio na mix. Mas se você tiver apenas um super pré é uma boa opção. Costumo variar essa microfonação com a que cito abaixo.
3. Dois ou mais microfones em omni direcional, com os cantores formando círculos em volta deles. Essa microfonação funciona melhor quando não há a necessidade de regente.

GRUPOS PEQUENOS (3 a 8 integrantes)

Nesses grupos alguns outros recursos podem ser usados:
1. Caso o grupo tenha um bom baixo com a voz bem profunda (lembram do Take 6?) nada soa melhor do que microfona-lo bem de perto, com o microfone de maior cápsula que estiver a disposição. Use e abuse do efeito de proximidade, esse extra grave, se bem controlado por um bom compressor (valvulado!!), dá um peso enorme ao grupo. O volume do baixo costuma não ser muito alto, então cuidado, gravar com pouco volume é quase tão ruim quanto alto demais e cheio de ruído! Com o mic perto você já compensa boa parte dessa falta de volume. E não se esqueça do anti-puff.
2. Muitas vezes o baixo de um grupo menor imita um baixo elétrico, então não se prive de experimentações, comprima mais do que o normal (8:1, por exemplo), use um reverb só para o baixo, dê uma dimensão especial só para ele.
3. Nem sempre o que é bem vindo num grupo maior é desejado num pequeno. Cuidado com as dobras, num grupo menor acho mais interessante partir para um super som do grupo sem dobra. Gosto de poder identificar cada voz, e ainda assim ouvir uma timbragem perfeita. Em arranjos para esses grupos é comum o uso de muitos solos, então é desejável ter um controle sobre cada uma das vozes.
4. Dependendo do arranjo, e da quantidade de bons mics e prés grave cada cantor num mic, procure isolá-los, principalmente o baixo, mas cuidado sempre com o cancelamento de fase, ouça tudo em mono e veja se está tudo certo, se não, mexa um pouco no posicionamento dos mics ou inverta a fase do mic suspeito. Se o estúdio tiver bons rebatedores monte pequenas baias (esse termo não vai agradar muito!!) separando os cantores. Eu adoro usar rebatedores, acho que não conseguiria gravar num estúdio sem eles. Gosto dos rebatedores com 2m de altura e 1m de largura, de um lado revestidos com tecido e no outro por madeira, e por dentro são recheados com lã de vidro, e claro, têm rodinhas. É fundamental que algum deles tenha uma janela de vidro no meio para permitir a comunicação visual entre os músicos. Trabalhei num estúdio que possuia um rebatedor 100% de vidro, de quase dois metros de altura, não era nada fácil movimentar esse monstro, já que o vidro era bem espesso.
5. Sempre que possível ão abra mão de gravar todos juntos o máximo possível!!! Já ouvi um técnico dizer uma frase que resume bem esse conceito: “Cantor canta bem com outro cantor e não com a fita!!!” Você nunca vai conseguir uma timbragem perfeita gravando um por vez, tem que estar timbrando bem antes de chegar no mic!! Sempre que posso tento convencer o produtor a experimentar todos juntos ou pelo menos separar por grupos que fazem partes bem definidas onde a trimbragem é mais necessária ainda.
Nessas microfonações onde os cantores ficam mais perto do microfone é indicado o uso de um bom anti-puff.

DOBRANDO

Dobrar um grupo vocal, é um recurso muito interessante, ajuda a arredondar o som do grupo, disfarça (!!!) as possíveis desafinações e imperfeições na timbragem, encorpa o som, etc. Sugira essa opção ao produtor ou regente, grave umas 2 ou 3 dobras, tenho certeza que desgostar ele não vai! Pode ser que por opções estéticas ele não queira usar esse recurso, mas que fica bom fica!! Procure não gravar exatamente da mesma forma cada dobra, mude pelo menos um pouco a posição dos cantores, mude principalmente à distância entre eles e o mic. Junto com o regente experimente mudar a interpretação de uma dobra para outra, uma mais agressiva, outra mais calma, uma com mais brilho na voz e outra mais quente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não se prenda a uma idéia somente, misture técnicas. Cuidado para não demorar demais nas experimentações, quando o coro está quente e pronto para gravar, procure demorar o mínimo possível para começar. Quanto sei que vou ter gravação de um grupo vocal procuro conversar antes com o regente ou produtor para decidirmos que som queremos conseguir, se possível escuto alguma coisa que eles já tenham gravado, gosto de dormir pensando em como será a gravação, quanto menos surpresas (ruins) tivermos melhor, com menos problemas atravancando a evolução da gravação o clima fica mais leve e o dia será mais produtivo. O horário marcado para a gravação também pode ser um problema, é muito difícil conseguir marcar com tanta gente ao mesmo tempo, normalmente eles procuram marcar no horário normal de ensaio. Procure sugerir que não marquem depois de um dia de trabalho, acho ideal reservar um dia inteiro para gravar, um domingo ou sábado, por exemplo. Marque para as pessoas chegarem pelo menos 40 minutos antes da gravação, o aquecimento e o trabalho de afinação deve ser feito com todos que vão gravar, quem chegar atrasado não grava, pelo menos até depois do intervalo. Gosto quando a gravação começa em torno das 10 da manhã, almoçamos as 14 ou 15hs e gravamos até o início da noite. Não fica tão cansativo e rende muito. Se marcar a noite fica difícil para todos esquecerem os problemas do dia e se concentrarem na gravação. Gosto que acordem e venham direto para o estúdio, almocem por aqui mesmo, sem sair, quanto menos dispersão melhor. No dia marcado chego uma ou duas horas mais cedo e já monto tudo, mics, fones, etc, quando o grupo chega já está tudo pronto, aí tenho pelo menos mais meia hora para rodar meus botões. Se o grupo estiver empacando em um música específica fique atento para a hora certa de sugerir tentarmos outra. Procure sempre se dirigir diretamente ao regente, se tiver alguma crítica a fazer faça em particular, escute e discuta o problema com ele na técnica, não faça comentários desagradáveis na frente do coro, são muitas pessoas e você não sabe qual será a reação de cada uma, o grupo pode desanimar e um grupo grande desanimado não consegue gravar nada que preste, fica nítido no som a falta de vibração. Para o coro o importante é manter o bom humor, seja agradável, procure saber o nome de cada chefe de naipe. Na grande maioria das vezes você não estará lidando com cantores profissionais, eles estão lá porque amam cantar, se divertem com isso, a gravação não pode ser um trauma, até porque se for eles não voltam pra fazer o segundo!!!